O que não coube em 10 minutos de TEDx
No palco do TEDxYouth em Leiria, eu tinha poucos minutos para defender uma ideia desconfortável: estamos a treinar máquinas para que pareçam mais empáticas do que nós próprios. A talk acabou, mas a pergunta ficou: o que acontece quando a empatia deixa de ser só humana e passa a ser uma funcionalidade de produto?
Quando alguém fala com o apoio ao cliente de uma empresa, muitas vezes está frustrado, cansado ou com medo de perder dinheiro, tempo ou controlo da situação. Do outro lado surge uma resposta tecnicamente perfeita. As palavras são correctas, o tom é adequado, a pontuação é impecável. Ainda assim, há qualquer coisa que soa vazia.
É aqui que começa o paradoxo. A IA consegue reconhecer padrões emocionais com uma precisão cada vez maior, mas isso não significa que sinta o que nós sentimos ou que assuma qualquer responsabilidade pelo que nos acontece. Ela interpreta empatia. A decisão de agir com empatia continua a ser humana.

E isto já não é uma curiosidade de nicho. O mercado de Emotional AI foi estimado em 35,72 mil milhões de dólares em 2026, com projecções de atingir 51,25 mil milhões até 2030. Estamos a falar de tecnologia que entra no atendimento, na saúde, na educação, nos serviços financeiros e no sector público em todo o mundo.
Neste cenário, há uma armadilha silenciosa: a tentação de terceirizar responsabilidade moral para interfaces “empáticas”. Quando um agente de IA atende melhor do que a média das interacções humanas do dia‑a‑dia, é fácil deixar que seja ele a tratar de quase tudo, de clientes irritados a utentes angustiados. Só que empatia verdadeira não é apenas dar a resposta certa. É aceitar o custo emocional de estar presente para outra pessoa.
Reconhecer emoções e as viver são coisas diferentes. A IA consegue inferir tristeza, raiva ou ansiedade através da combinação de palavras, histórico, tempo de resposta e tom de voz. Pode acertar na classificação ou na resposta mais provável. Mas nada do que responde volta ao “corpo” dela. A máquina não perde o sono, não entra em burnout, não carrega culpa nem responsabilidade. Nós, sim, pagamos esse preço. É esse custo que torna a empatia humana insubstituível e, muitas vezes, rara.

Pode parecer um contrassenso eu, que trabalho diariamente a desenhar experiências com IA capazes de identificar dezenas de dimensões emocionais numa interacção, chamar a atenção para estes limites. Mas é exactamente aqui que vejo a fronteira saudável: não usar tecnologia só porque é possível, mas usá‑la para aproximar pessoas e transformar relações, com interfaces que apoiam quando o humano não consegue estar presente, seja por barreiras linguísticas, seja pela necessidade de estar disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para tudo o que implica verdadeira responsabilidade e cuidado, o humano continua a ser fundamental.
Há também uma camada muito concreta e pessoal neste tema. Não é teoria abstrata sobre “sociedade e tecnologia”: é um testemunho vivo da cidade onde vivo, Leiria. No início do ano, ventos acima de 200 km/h destelharam casas e mudaram a vida de muita gente em poucos minutos. Em situações assim, a tecnologia pode coordenar ajuda, mapear danos, organizar doações e optimizar deslocações. Tudo isso é valioso.
Mas nenhuma notificação substitui o vizinho que bate à porta para saber se está tudo bem. Nenhuma mensagem automática substitui a pessoa que atravessa a cidade para ir buscar alguém. Nenhum agente de IA desempenha o papel de um amigo que simplesmente fica ao lado em silêncio. A decisão de sair de casa, expor‑se ao risco e estar presente continua a ser profundamente humana.
Do lado prático, quando falamos de IA conversacional, para mim faz sentido pensar em três perguntas simples:
- Que parte do trabalho repetitivo podemos automatizar sem perder humanidade?
- Que tempo humano de empatia queremos proteger a todo o custo?
- Em que momento a jornada deve, obrigatoriamente, sair do automático e chegar a alguém com tempo e contexto para cuidar da situação?
Modelos híbridos de suporte com IA mostram que, quando isto é bem desenhado, os resultados aparecem: mais satisfação, menos custos, melhor resolução ao primeiro contacto. Um exemplo é o relatório “The Rise of Empathy‑First AI: Transforming Customer Support”, que reúne casos de uso em que a combinação de agentes humanos com IA empática aumenta o NPS e reduz os custos operacionais.
Na AENVO, é assim que olhamos para cada projecto: não só “quantos tickets o bot resolve”, mas também “que tipo de conversa humana ele está a proteger”. Isso vê‑se em agentes de voz e texto que reconhecem frustração recorrente e mudam de estratégia, em rotas que privilegiam o atendimento humano em contextos sensíveis e em handoffs que não obrigam o cliente a repetir a mesma história várias vezes.
Se leu até aqui, é provável que sinta algumas destas tensões: pressão para automatizar, clientes cansados de falar com robôs e equipas no limite emocional. A pergunta que deixo é simples: em que momentos a sua organização não está disposta a abdicar da empatia humana? A partir daí, a IA faz mais sentido.
Empatia não é escassa porque falta tecnologia. É escassa porque tem um custo emocional elevado. A boa IA não é a que tenta imitar esse custo. É a que nos ajuda a assumi‑lo quando realmente importa.
Se quiser ver este recorte no palco, a talk está aqui, em inglês.
Publicado originalmente no LinkedIn.